quarta-feira, 29 de julho de 2015

Vice City Stories - Parte 18


Ao chegar à casa dos Mendez em uma terça-feira pela manhã, Vic encontra Armando preocupado, andando pela sala. Ele nunca havia demonstrado esse tipo de sentimento para Vic, que, espertamente, sacou que a aproximação definitivamente havia dado certo. Ao ver Vic, Armando diz:

 Uou! Graças a Deus você está aqui!

 O que está acontecendo? – Vic pergunta.

 Tenho más notícias, amigo. Você tem um grande problema para resolver. Diego está preocupadíssimo! – Armando diz.

 Peraí um minuto, do que você está falando? – Vic pergunta, confuso.

 A polícia pegou um pouco da nossa mercadoria. Mas é com você que estamos preocupados... – Armando diz.

 Por que? – Vic pergunta suspirando, já esperando uma merda fodida como resposta.

 Veja bem, nós somos utilitários. O melhor para o maior número. E há dois de nós, e apenas um de você. Então Diego sugeriu que disséssemos para a polícia que a cocaína era sua... – Armando diz.

 O que!? Ah, hahaha! Muito inteligente por parte de vocês! – Vic ironicamente ri.

 E, infelizmente, eu tenho essa papelada mostrando o seu envolvimento no projeto. A menos que possamos resolver essa pequena distração... – Armando diz, também ironicamente.

 E como você sugere que resolvemos isso? – Vic já está puto, mas não perde a calma.

 Você rouba a cocaína de volta para nós... – Armando diz – Ainda está sendo analisada pela perícia. Você deve roubar antes que levem para a delegacia.

 Puta que pariu... – Vic diz para si mesmo, bem baixo.

 Obrigado, Vic. Gosto muito de nossas conversas. Te acho bem inspirador! – Armando diz, após respirar fundo, como se estivesse se purificando.

 Obrigado. Lá vamos nós de novo... – Vic diz.

 Divirta-se! – Armando grita.

A intenção de Armando de foder os irmãos Vance já havia ficado clara para Vic. E ele sabia que seria assim. Foi ingênuo de pensar que Armando confiaria nele em algum momento. Era óbvio que ele não estava em nada preocupado com seu empregado, talvez até tenha armado isso para que Vic desaparecesse preso ou morto. Mas voltar com a cocaína seria a resposta perfeita de Vic, até porque era necessário naquele momento.

Vic vai até o porto da cidade, onde drogas e armas apreendidas pela polícia eram analisadas. Lá chegando, é informado por um empregado dos Mendez que o aguardava que havia alguns contêineres apreendidos no local e que a droga estava lá. Ao lado do homem, havia um helicóptero com um cabo preso a um grande imã magnético, feito exatamente para carregar objetos pesados pelos ares. A missão de Vic era cinematográfica: roubar o contêiner com a cocaína pelo ar. Ele levanta voo sem suspeitas e rapidamente chega ao contêiner. Vic era excelente para pilotar helicópteros. Aprendeu com pilotos profissionais nos tempos de Exército. Ele passa na altura certa e o magnetismo do imã suga o material metálico do contêiner. Em poucos minutos, Vic já estava deixando o contêiner em um ponto marcado em Little Haiti. Tudo foi tão rápido que nem deu tempo para a polícia reagir. Mas fazer tudo não seria tão fácil. O empregado de Mendez entra em contato com Vic e diz que a polícia estava deslocando outro contêiner com as drogas em um caminhão em direção ao porto. Vic agora teria que pegar o contêiner do caminhão em movimento, o que, obviamente, chamaria muita atenção. Mas não havia escolha, a droga não poderia ser entregue à delegacia e ser totalmente relacionada ao nome de Victor Vance. Vic vai com o helicóptero para a orla da praia de Viceport e rouba novamente o contêiner, o levando para o mesmo lugar, dessa vez com a polícia na cola. A mercadoria é deixada no lugar marcado e quando Vic já se preparava para pousar o helicóptero e arrumar um jeito de fugir da polícia que estava chegando, o empregado de Mendez novamente entra em contato. Dessa vez, para dizer que motoqueiros estavam perseguindo seu carro e que era para o helicóptero pegá-lo. Vic percebeu nesse momento que aquilo muito provavelmente já estava programado para, em alguma dessas situações, acontecer o pior. Um plano de vingança surge. Vic pegaria o carro com o helicóptero e deixaria no quintal da mansão dos Mendez, levando a polícia toda para lá. Ele encontra a perseguição perto da casa de Lance, em Washington Beach, resgata o homem elevando seu carro e o leva até Prawn Island. Deixa o carro no estacionamento da mansão. A polícia toda cerca a casa. Era vez dos Mendez se virarem. Vic leva o helicóptero até um estacionamento em cima de um prédio. Lá pousa, desce e rouba um carro estacionado, quebrando o vidro lateral. Ele desce o estacionamento com o carro com os vidros todos abertos para não perceberem e sai tranquilamente, a polícia ainda não havia chegado ao prédio. Vic vai com o carro até um novo apartamento que havia comprado recentemente. Por lá fica por alguns dias até a poeira abaixar. A relação com os irmãos Mendez, por pior que já fosse, azedou de vez.

No escritório de Reni, há uma reunião. Ela está recebendo um homem gordo, calvo, peludo e com um forte cavanhaque. Este homem era inglês, um empresário do ramo artístico. Algo normal no escritório da diretora de cinema. Os dois estão sentados sozinhos falando sobre alguém.

 Ele não sabe? – pergunta Reni.

 Não. E vamos manter isso desta forma! – diz o empresário, com seu forte sotaque inglês.

 Claro, ele é um artista. A pressão poderia matá-lo. Bem, eu interpreto muito bem sabendo que alguma pessoa quer me encher de buracos de tiro, mas eu sou única, querido... – diz Reni, que se anima ao ver Vic entrando no escritório – Querido!

 Ei, Reni! Oi, err... – Vic responde e olha para o homem que não conhecia.

 Querido, esse é o querido: querido, querido! – Reni apresenta os dois e investe na sua sensualidade esquisita, se debruçando sobre a mesa – Wunderbar! Agora que todo mundo se conhece, quem quer participar de um “grupinho”?

 Err, meu nome é Vic! – diz Vic ao homem, ignorando as loucuras de Reni.

 Tudo bem? Barry, camarada! – o homem aperta a mão de Vic. O nome dele é Barry Mickelthwaite.

 Meu querido, o querido precisa de um favor... – Reni diz a Vic.

 Sim, eu preciso que você dirija para mim e para um dos meus clientes por aí. Um grande artista. Poderia cantar com os passarinhos nas árvores. Você vai adorá-lo! – Barry completa.

 Eu sou meio caro para um serviço de motorista de limousine... – Vic corta.

 Bem, o rock n’ roll é um mercado sujo, pintão... – Barry diz.

 Como é? – Vic se surpreende com o adjetivo, comum na Inglaterra.

 Bem, um cara aí me deu três milhões, mas agora ele quer de volta. Um babaca! – Barry explica – E ele está ameaçando matar meu cara se eu não pagar.

 Ok, eu irei te ajudar, mas isso vai custar caro... – Vic diz.

 Sim, sim, tá bom! Meu Deus, que horas são? A gente tem que ir ver o meu garoto! Você vai gostar dele... – Barry diz após olhar o relógio.

Vic se despede de Reni e vai ao pátio com Barry. Lá, o inglês explica ao entrar em seu carro:

 Tenho uma limousine especial encomendada. Vamos buscá-la e pegar o garoto.

 Limousine especial? – Vic pergunta.

 À prova de balas! Não posso dar chances, cara! Esse cara significa negócios... – Barry responde.

Barry leva Vic até um campo de golfe particular chamado Leaf Links, que ficava em uma pequena ilha no meio de Vice City. A limousine blindada já estava lá, estacionada. Já de dentro dela, os dois veem um helicóptero se aproximando e pousando no gramado. De dentro do helicóptero sai um homem de pouco mais de trinta anos, de longos cabelos, com uma roupa bem simples para um grande artista da época. Ele vê a limousine e caminha até ela. Mas a emboscada estava armada. Dois carros chegam ao local derrapando na grama e deles saem vários homens armados, mirando para o artista recém-chegado à cidade.

 Puta que pariu! O desgraçado mandou seu exército para matar o meu talento! – Barry grita, abrindo a porta da limousine para se jogar no chão.

O helicóptero em que o artista estava é alvejado por tiros de metralhadora e explode rapidamente. O piloto morre carbonizado imediatamente. A explosão leva o artista ao chão e ele se arrasta até atrás da limousine, onde já estava Barry. Vic pega sua metralhadora e reage. Ele fecha o vidro da limousine e deixa somente o cano de sua arma para fora. Sua rajada de tiros vai eliminando os homens armados, que estavam um ao lado do outro, provavelmente não esperando reação armada. Os seis homens desabam atirando para cima após serem atingidos. Vic abre a porta da limousine e se aproxima deles dando a rajada de misericórdia. Após tudo se acalmar, os dois ingleses levantam do chão. O artista diz, irritado, para o empresário:

 Olha, Barry. Quando aceitei tocar em Vice City, eu não esperava que esse fosse meu último ato!

 Não tem nenhum problema, cara! É só um babaca tentando aparecer! – Barry responde gritando.

 Ei! Você não é o...? – Vic reconhece o artista.

 Phil, cara. Phil Collins! – o artista inglês é Phil Collins, um dos maiores nomes do rock de todos os tempos.

 Vamos fazer essa apresentação em outro lugar, né? Vamos embora! – Barry grita.

Todos entram na limousine e vão em direção ao hotel onde Phil ficaria em Vice City. No caminho, ele quer saber o que aconteceu.

 Giorgio quer o dinheiro de volta! – Barry grita, impaciente.

 Que dinheiro? Barry, quem são esses doentes? – Phil não entende.

 Fique com sua cabeça abaixada, Phil! – Barry só grita.

 Pelo amor de Deus, Barry! O que foi que você fez dessa vez? – Phil insiste.

 Eu juro pela vida da minha esposa ou pela sepultura da minha mãe! Eu não sei por que ele está fazendo isso! – Barry responde, ainda gritando.

 Nós não deveríamos chamar a polícia? – Phil sugere.

 Isso aqui é Vice City, cara, por favor! Terra de bandidos! Isso não é nada... – Barry finalmente para de gritar.

 Quem é esse Giorgio que você deve dinheiro? – Phil pergunta.

 Ah, é só um fã! – Barry despista – Ele me emprestou, quer dizer, me DEU um dinheiro...

 Barry, você está se metendo com mafiosos!? – Phil fica surpreso e nervoso.

 Não, cara! Eu juro! Pela sua vida! – Barry volta a gritar.

 Era isso que eu estava preocupado! Você é um verdadeiro imbecil! – Phil suspira em negação – Eu deveria era ter te deixado empresariando aquele cachorrinho falante! Qual era o nome dele? Puddles?

O homem que Barry havia pedido dinheiro emprestado era Giorgio Forelli, um dos caporegime da Forelli Family, a famiglia mais poderosa da máfia italiana de Liberty City, ao norte do país. Giorgio, além de comandar os soldados da família, era agiota e trabalhava apenas com grandes quantidades de dinheiro. Na maioria das vezes, seus clientes não conseguiam pagar o que pediam. A vida era o preço. Mexer com famílias da Cosa Nostra era algo evitado até pelos grandes barões das drogas de Vice City. O fato da máfia italiana historicamente não se relacionar com drogas também evitava conflitos.

Vic estava só escutando enquanto dirigia. Ele chega ao imenso Marina Sands Hotel, um dos hotéis mais luxuosos da cidade, localizado em Ocean Beach, e deixa a limousine no estacionamento subterrâneo. Phil e Barry entregam mil dólares a Vic e sobem para a suíte pelo elevador. Vic deixa o hotel a pé e vai dormir na mansão de Lance, que ficava a apenas alguns quarteirões dali. Antes de dormir, Vic ficou tentando descobrir a origem do nome Giorgio e chegou a conclusão de que deveria ser italiano. Logo associou criminosos com nomes italianos a grandes problemas pelo que havia vivido naquele dia. Ele já tinha ouvido falar dos italianos de Liberty City enquanto estava no Exército. Vic adormeceu pensando naquilo. No outro dia, já havia esquecido. Um grave erro.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Vice City Stories - Parte 17


Em uma tarde de domingo, Vic vai sozinho até a mansão dos irmãos Mendez. A aproximação era sempre necessária. Os seguranças já o conheciam, então liberaram sua entrada sem a autorização dos donos da casa. Na sala, Vic vê Diego sentado no sofá lendo um livro. Ele resmunga e suspira quando vê Vic. Aparentemente, ele não ia muito com a cara do novo empregado.

 Com licença... – Vic direciona a palavra a Diego, que o ignora – Senhor Mendez...

 Armando! Aqui! Tus amigos! – grita um Diego irritado para seu irmão. Ele não queria papo com Vic.

 Bom falar com você também, camarada... – Vic ironiza.

 Ah, meu irmão, tão conversador... – Armando entra na sala e diz a Vic – Hoje mesmo estávamos conversando sobre filosofia. Ele é um grande fã de Platão, já eu sempre fui mais aristotélico... Acho que é por isso que ele é tão feliz, e eu sou tão puxado para baixo por preocupações. O que você acha?

 Eu? Porra, o mundo está cheio de dor. E aí você morre... – Vic responde, meio confuso.

 Olha aí! Eu sabia que nós tínhamos uma só mente, você e eu! Por isso achei que você sentiria essa crise assim como eu! – Armando se empolga.

 Lá vamos nós... – Vic suspira.

 Alguns marginais tem mostrado um desprezo por nós usando nossa casa como uma entrada para drogas nesta fina nação... – Armando diz.

 Como você? – Vic interrompe.

 Exato! Plágio! Isso é um insulto! – Armando se exalta – Espero que você seja sábio o suficiente para saber que se você deixar um homem te insultar, logo ele tentará te matar. Você deve matar esses degenerados. Você os encontrará perto de Ocean Beach.

Armando faz algumas anotações em um papel e entrega a Vic. No papel, há o nome de um hotel, o Standing Vice Point, e o nome de quem ele deveria matar. Vic vai até esse hotel, se passa por hóspede e acessa a grande área da piscina, pois percebeu que estava ocorrendo uma festa naquele fim de tarde ensolarado. Nessa festa havia alguns homens bem vestidos e armados, além de várias garotas de biquíni tomando sol deitadas em cadeiras. Vic pergunta a uma dessas garotas se ela sabia quem eram Hector Lopez e René Contreras. Eram esses nomes que estavam no papel como os principais alvos. A garota aponta para um homem negro, de longos cabelos, terno verde e chapéu de mesma cor, com grandes óculos escuros. Aquele era Hector, um típico cafetão. Ele estava acompanhado de uma loira alta de biquíni, possivelmente uma modelo. Vic se aproxima do homem, que quando o vê, diz:

 Essa é uma festa privada, amigo...

 Bem, esta é uma execução pública! – responde Vic, que tira sua pistola e atira no peito de Hector.

 Ah, merda! Peguem ele, garotas! – grita Hector, após ser atingido e cair no chão.

Várias garotas que estavam na festa tinham uma pistola consigo, a maioria dentro de bolsas, afinal provavelmente eram todas prostitutas barra-pesada, assim como as de Vic. Um tiroteio se inicia naquela área de lazer do hotel cinco estrelas. Vic se protege atrás de vários arbustos e coqueiros que o local tinha, mas os tiros eram intensos. Ele se vê obrigado a partir para a ofensiva e ir eliminando aquelas mulheres, que tinham armas, mas não sabiam atirar muito bem. Aquilo era algo que Vic nunca havia se imaginado fazendo, mas era a realidade. Ele percebe o outro homem procurado, René, fugindo por uma saída do hotel para a areia de Ocean Beach. René foge com algumas mulheres e rouba vários quadriciclos que um senhor alugava para turistas andarem pela praia. Vic persegue o homem e também rouba um quadriciclo. Agora o tiroteio havia migrado para a praia, mas não demorou muito. Como estava na frente, René tinha que virar de costas para revidar os tiros de Vic, o que acabou o fazendo cair de seu veículo. Vic se aproximou e deu dois tiros na cabeça do traficante. O serviço estava feito. Ele segue com o quadriciclo de volta até a casa dos Mendez para avisar que Lopez e Contreras já estavam mortos. Ele recebe uma recompensa pelo serviço e volta para casa de carona com um dos seguranças do cartel, já que sua moto ficou estacionada em frente ao hotel, que estava repleto de policiais após o tiroteio em seu interior. Após algumas horas, Vic voltou ao local para buscá-la.

Naquela noite, Vic vai até o escritório de Reni. Lá, ele presencia uma cena um pouco, digamos, constrangedora.

 Você tem sido um menino mau! – diz Frankie, ao dar palmadas com sua prancheta em Reni, que está de bruços.

 Mais alto! – Reni grita.

 Hummmmmmm... Você tem sido uma menina má! – Frankie grita e bate saltitando com mais força na bunda de Reni.

 Mais forte! – Reni grita.

 Ai, me dá um descanso, Reni! – Frankie desiste – Fui para a faculdade de cinema. Sou expert em tudo. Adoro zoar as pessoas. Sou perfeito! Então por que eu tenho que gastar meu tempo batendo em você?

 Pela arte! – Reni responde – Ai, você é tão bourgeois. Doce, mas tão, tão... Comum! Vai. Acabou. Você está demitido!

 Mas, Reni... – Frankie se espanta.

 Mas, Reni! Mas, Reni! “Reni, você é fantástica e eu sou muito medíocre”. Não. VAI! – Reni ironiza seu ajudante, que começa a chorar.

 Querido, você está aqui! Para acender meu coração... – Reni diz ao ver Vic, que assistia a tudo da porta.

 Err... Não exatamente... – Vic responde, sem jeito.

 Eu te amo. Eu amo esse homem! Me beija! – Reni corre para cima de Vic.

 Ei, dá um tempo! – Vic se afasta.

 Vou te dar um tempo se você me der um tempo... – Reni propõe, ainda se jogando em Vic.

 Eu não consigo lidar com isso... – Vic avisa.

 Oh, querido, por favor. Eu preciso da sua ajuda. É um amigo meu, Gonzalez, hihi! Ele está para transportar uma merda aí cheia de coca, hahaha! – Reni diz e ri com Frankie, que já estava melhor.

 Hum... Tá bom... – Vic decide cooperar com Reni.

Reni diz a Vic que Gonzalez, um homem gordo, careca e de bigode, de meia idade, colombiano e um dos grandes traficantes da cidade, está com um barco no píer do centro da cidade, aquele onde Lance foi sequestrado. Ele está precisando de segurança para levar a droga para algum lugar sem ser incomodado. Vic vai ao centro da cidade e no píer vê homens armados, um barco ancorado e o colombiano em uma camisa verde florida, escoltado por dois homens armados com fuzis. Ele se aproxima com cautela e pergunta:

 Você é Gonzalez?

 Ah, você deve ser Victor. Señor, eu preciso levar a mercadoria do meu coronel em segurança para Viceport... – Gonzalez diz.

 Seu coronel? Você é do Exército? – Vic se surpreende.

 Não o seu Exército. Coronel Juan Garcia Cortez, meu chefe! – Gonzalez responde.

 Vou ter isso na cabeça... – Vic garante ao colombiano.

 Pegue meu helicóptero. Meus homens irão te acompanhar... – Gonzalez diz e balança a cabeça em direção ao pequeno helicóptero no píer para seus homens.

Nos anos sessenta, Gonzalez saiu da Colômbia e foi para o Panamá investir no tráfico de drogas. Lá, conheceu o coronel do Exército Panamenho Juan Garcia Cortez. O coronel era um grande traficante na época e fez de Gonzalez seu braço direito. Já no final dos anos setenta, Juan Cortez envia Gonzalez para Vice City para estabelecer contatos na região para que ele possa se estabelecer no tráfico dos Estados Unidos, o grande centro de venda de drogas do planeta. Gonzalez cria conexões com os maiores traficantes da cidade e o coronel fixa sua residência, um belo iate, em um dos píeres de Vice City.

Vic entra no helicóptero de Gonzalez e os dois homens que o acompanham se prendem no trem de pouso para atirarem pelo ar se necessário. Vic levanta voo e o barco começa a ir pelo mar até Viceport, então seria um caminho de aproximadamente dez minutos até o outro lado da orla. Logo que o barco sai, aparecem em torno de sete lanchas em alta velocidade indo em direção a Gonzalez. Elas estavam esperando o barco sair para atacarem. Vic percebe e imediatamente paira o helicóptero a poucos metros da água e os homens de Gonzalez abrem um fogo intenso contra os homens nas lanchas, possivelmente servos de outros traficantes da cidade. Havia homens armados também no barco de Gonzalez fazendo segurança. Foram aproximadamente cinco minutos de forte tiroteio a poucos metros da areia. Algumas lanchas chegaram a explodir ao terem o motor atingido pelas balas. Todos os homens que atacavam o transporte da cocaína foram mortos. O barco de Gonzalez chegou ao porto em segurança, apenas com alguns tiros na lataria. Por sorte, helicópteros com atiradores chegaram atrasados para roubarem a mercadoria. O helicóptero em que Vic estava já estava no chão e o barco já estava dentro de um estaleiro.

 Perdi muitos homens bons hoje. Homens que eu não posso pagar a perda se eu ficar protegendo os interesses do meu coronel nos negócios à frente... – Gonzalez revela.

 Se você precisar de um segurança, você pode ter muito trabalho por minha parte. Pelo preço certo, é claro! – Vic diz.

 Talvez. Mas eu não posso confiar em ninguém antes de descobrir quem falou sobre o nosso transporte para aqueles bandidos hijos de putas! – Gonzalez grita.

O colombiano entrega oitocentos e cinquenta dólares a Vic pelo serviço prestado. Entra em um carro com seus homens e vai embora. Vic novamente havia descoberto uma fonte de renda: um braço direito de um barão das drogas, mas que havia se cansado de ser um braço direito e que queria começar seu próprio império. Valeria a pena confiar em Gonzalez?

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Vice City Stories - Parte 16


Vic passou a noite em claro. Ele se arriscara demais tirando fotos de Martínez para entregar aos irmãos Mendez. Será que Lance havia entregado as fotos e Armando e Diego acreditaram que Martínez estava por trás do roubo da droga? Assim que amanheceu, Vic tentou contato com seu irmão, mas não conseguiu. Resolveu enviar uma mensagem pelo pager, mas duas horas se passaram e não houve resposta. Só restou um jeito de descobrir se tudo havia dado certo: ir até Prawn Island visitar os barões latinos. Vic resolve ir com seu carro por questão de segurança em uma possível fuga. Ele chega à mansão exatamente às nove da manhã. Os seguranças o deixam passar. Vic vai ao escritório e aguarda os irmãos, que haviam sido avisados que Vic Vance estava lá. Vic foi sem medo. Não havia o que fazer. Se o plano de Lance tivesse dado errado, ele já estaria morto. Com um pai morto, um irmão assassinado e uma mãe viciada em pó, ninguém seguraria Vic nesta vida. Nem Louise, que ele há muito tempo queria ver, mas temia por sua segurança. Após alguns minutos, Armando recepciona Vic e diz enquanto prepara um uísque:

 Então, agora estamos juntos. E ainda: negócios são difíceis. Essa indústria está cheia de criminosos...

 É mesmo? – Vic ironiza, tentando mostrar confiança.

 Dinheiro pode ser muito corruptor. E eu acho isso bem desagradável... – Armando diz.

 Hehe! Bem, é assim que funcionam os negócios das drogas, você sabe. Atrai as piores coisas... – Vic tenta tornar a conversa agradável.

 Claro. Você é digno de confiança, amigo? – Armando pergunta desafiadoramente para Vic, olhando no fundo de seus olhos.

 Eu não sei... – Vic responde prontamente – Pelo que eu passei recentemente, eu diria que provavelmente não.

 Ótimo! Honestidade é uma qualidade bem atraente! Estou te promovendo, Vic! – Armando diz, aparentemente contente com a resposta, e dá um tapinha no ombro de Vic.

 Obrigado. O que você precisa que eu faça? – Vic se submete.

 Vá para Vice Point. O pessoal de lá está me roubando há anos. Remova-os e prepare o comércio. Precisamos de um local para distribuir produtos... – diz Armando.

 Olha, eu não estou interessado nessa parte do negócio... – Vic diz.

– Infelizmente, você não tem escolha... – Armando sussurra, novamente encarando Vic – Agora vai, Vic, por favor.

Um dos seguranças dá um endereço a Vic. O local era dominado por motoqueiros. Vic precisaria limpar o local e tomar o comércio. Não era muito longe dali. Vic chega em um drive-by pela fachada, eliminando os seguranças da pequena casa. Arromba a porta com um chute e solta uma rajada de tiros de seu fuzil contra quem estivesse dentro. Depois os capangas dos Mendez reformariam as paredes furadas. Assim que limpa a área, Vic liga para o chefe da segurança de Mendez e libera a ocupação. Enquanto espera pela chegada dos homens, Vic finalmente recebe a resposta de Lance: “Vem até aqui, mano!”.

 Lance! – Vic chega à casa de Lance e o vê procurando algo embaixo do sofá – Vem aqui agora e se explique!

 Shhhhhhh! – Lance manda Vic falar baixo, com o dedo na boca enquanto dá passos leves no chão.

 Não haja igual uma criança! – Vic grita.

 SHHHHHHHHHHHH! – Lance insiste.

 Não faça “shhh” pra mim! – Vic responde.

 Fala baixo! – Lance sussurra.

 Não! Você mal consegue amarrar seus sapatos e quer me falar o que eu devo fazer? – Vic se irrita.

 VOCÊ NÃO PODE CALAR A BOCA, SEU GORILA ESTÚPIDO!? – Lance explode e vai para cima de seu irmão – A CASA ESTÁ GRAMPEADA! A DEA ESTÁ NA NOSSA COLA! FELIZ AGORA?

O clima fica muito pesado. O silêncio toma conta do ambiente e os dois irmãos se sentam no sofá da sala. Vic não fala nada por alguns minutos. De repente, ele sai da casa de Lance indo em direção a sua moto. Lance percebe e vai atrás de seu irmão:

 Aonde você vai, cara?

 Vamos ter grampos em todos os nossos locais... – Vic diz, colocando seu capacete.

 E quando você achar todos, já vamos estar na metade do caminho para uma longa sentença de prisão... – Lance ironiza.

 O que eu devo fazer!? – Vic grita.

 Esses grampos transmitem longe. Então seria derrubar todas as antenas da polícia... – Lance diz – A DEA não vai ter um sinalzinho dessas coisas.

Vic pensou que a ideia do irmão era realmente boa e a melhor opção no momento. Mas atirar em antenas não resolveria. Elas teriam que ser explodidas. Então era hora de passar na Ammu-Nation, a maior loja de armas do país desde 1963, para comprar algo para lançar bombas. Vic entra em uma loja próxima a casa de Lance e compra um RPG, popularmente conhecido como Lança-Míssil. Essa arma custa bem caro, mas a situação necessitava dessa despesa, que seria muito menor do que ser pego pela DEA. Vic volta até a casa de Lance com o RPG em mãos em sua moto para guardá-lo dentro de um carro, para não chamar atenção. Vic vai com o carro de Lance a várias delegacias da cidade. Todas elas tinham antenas no telhado visíveis da rua. Então Vic sempre se escondia em algum beco ou arbusto por perto e lançava os mísseis no telhado das delegacias. Com certeza alguma antena destruída deveria ser a que estava recebendo o sinal dos grampos dos irmãos Vance. Quando a polícia saia para verificar quem estava bombardeando tudo, Vic já estava em seu carro, bem longe dali indo em direção a outra delegacia. Em menos de meia hora, Vic bombardeou três delegacias: a de Washington Beach, a de Little Havana e a do centro da cidade. Na delegacia do centro, já haviam preparado uma proteção bem maior após saberem dos dois ataques anteriores, então Vic age furtivamente para destruir a antena e foge em direção ao hotel que Lance ainda tinha o quarto. Ele fica por lá com um nome falso sem sair até a madrugada. Ninguém havia testemunhado seus ataques graças a sua ação furtiva. Vic pergunta a Lance se sua ação havia dado resultado e recebe resposta de que fontes da polícia disseram que o ataque causou grande dano aos planos e investigações da DEA, tendo sido, então, um sucesso. Vic reagiu de duas maneiras: feliz, por ter dado certo, e preocupado, também por ter dado certo. A reação da DEA viria.

Naquela noite, no hotel, Vic recebe uma mensagem de Reni, a pessoa que o diretor Spitz havia falado para Vic contatar caso quisesse continuar na carreira de cinema: “Querido! Eu tenho um lucrativo contato para você. Abraços!”. Para sair da atmosfera de negócios de drogas, Vic espera amanhecer e vai ao Interglobal Studios para conhecer Reni.

Reni Wassulmaier era uma diretora alemã. Transexual, Reni era alta e se vestia e se maquiava baseada na androginia, sendo praticamente uma mistura de Ziggy Stardust com Boy George, duas grandes figuras (principalmente o último) na cultura pop europeia dos anos oitenta. Reni tinha em torno de quarenta anos e havia passado por várias cirurgias de mudança de sexo, nunca decidindo qual gênero gostaria de ter, então de cara não era possível identificar se ela era, de fato, uma mulher. Naquele momento atual de vida, era um homem. Reni havia sido prostituta e participado da indústria pornô em Berlim, mas ficou famosa na Europa após dirigir alguns filmes de arte vanguardista e chocantes. Ela levou toda sua companhia de filmes para a América em 1983. Com ela, foi seu fiel assistente Frankie, um homem loiro, de cabelos encaracolados e de trejeitos bem afeminados, o que combinava com o estilo de Reni. Os dois ficavam praticamente o dia inteiro nos camarins do Interglobal Studios. Era lá que estavam na manhã em que Vic foi fazer uma visita.

 O que você acha, hein? É genial, não é? Genial... FRANKIE! – Reni conversa com seu forte sotaque alemão com seu assistente sobre algum projeto.

 Genial, Reni! – Frankie diz, enquanto faz anotações.

 Genial, querido! É a história da época! – Reni se empolga – Sucesso e falhas. Homem. Mulher. E eu? Esmago os dois! Arte e propaganda. Futuro e passado. Homem e mulher.

 Errr... – Vic chega até a porta do camarim e fica um pouco surpreso com a figura que vê.

 Frankie, quem é esse homem lindo? – Reni o analisa e pergunta a seu assistente.

 Eu não sei. Quem é você? – Frankie pergunta a Vic.

 Estou procurando por alguém chamado Reni... – Vic diz.

 Tadããã! – Frankie aponta para Reni.

 Ah, sim. Spitz disse que talvez você queira algo... – Vic completa.

 Algo? Ah, cocaína, hahaha! Querido, eu quero cocaína! – Reni fica alegre, batendo palmas e rindo – A mamãe quer cheirar um pouquinho e quer agora! Você deve ser o cara da cocaína. Frankie, o cara da cocaína está aqui!

 Hahaha! – Frankie começa a gritar e a pular, indo a outra sala.

 Ei! Vocês não podem falar isso mais alto? – Vic se irrita e ironiza – Acho que não ouviram vocês em Cuba...

 Ah, seu quadrado de merda! É só um pozinho... – Reni diz – Estamos em 1984, caralho. Todo mundo usa cocaína, querido!

 Tá bom, tanto faz, senhor... Errr... Senhora... Errr...– Vic não sabe o que dizer.

 Oh, querido! Eu sou um pouquinho de tudo. Sou universal! Reni Wassulmaier! Mas você, anjo, você é único! Posso filmar você tirando a roupa? – Reni pergunta indiscretamente a Vic.

 Uuh, Reni, nós temos um problema! – Frankie volta da sala gritando, com seu jeito afeminado.

 Agora não, querido. Estou flertando. Estou sonhando... – Reni começa a viajar – Um chateau no Loire, dois amantes abraçados...

 Reni! O dublê acabou de pedir demissão! – Frankie interrompe Reni – Ele disse que não gostou de você ficar pegando na bunda dele...

 Ele o que!? Oh, foi apenas diversão. Isso aqui é pura paixão. Querido, por favor, me salve! – Reni abraça as pernas de Vic.

 Ei! Sai fora! – Vic tenta tirar o andrógino de suas pernas, que não larga – Ok, ok! Do que você precisa?

 Apenas de um motorista... – Reni suplica.

 Tá bom, tudo bem. Agora sai fora! Ei! Sai fora! – Vic afasta Reni, que estava passando a mão em sua bunda.

Vic e Reni vão para o pátio da Interglobal. Lá tem um carro parado, várias pessoas com câmeras e um helicóptero cheio de gente com camisetas de produção. Vic faria novamente o papel de dublê, desta vez dirigindo um carro.

 Você não precisa de nenhum produto? – Vic pergunta.

 Preciso das metáforas das calamidades da vida, querido... – Reni responde, entrando no helicóptero – Dirija bem e eu te apresento mais compradores do que você pode imaginar. Lembre-se, anjo: esse comercial precisa de ação, ação, ação!

O helicóptero levanta voo, mas fica bem próximo do chão. Reni usa um megafone para falar com Vic. Ela aguarda ele entrar no carro e dá o comando para as gravações começarem. O que Vic deveria fazer era muito simples: rodar pelos arredores da cidade em alta velocidade para que o helicóptero pudesse filmar tudo. E quanto mais perseguição policial, melhor. Não demora muito e já há uma viatura atrás de Vic, que faz curvas em altíssima velocidade, mostrando toda sua habilidade ao dirigir e encantando Reni. Dois minutos de gravação já seriam suficientes, então Vic recebe a ordem de voltar ao estúdio, onde deveria entrar pelo portão e saltar numa rampa para cair em um cenário de um prédio, como se o carro tivesse invadido um apartamento. É o que Vic faz perfeitamente. A viatura da polícia o seguiu até a entrada do estúdio, lá eles receberiam um valor para não se importarem com aquela pequena ousadia no trânsito.

Reni sai do helicóptero muito satisfeita com o trabalho de Vic. Ela entrega oitocentos e cinquenta dólares a ele, o convida para mais trabalhos e promete dar os nomes de compradores para Vic se ele aparecesse mais vezes no estúdio. Trato feito. Vic tinha uma grande fonte de renda por perto e queria aproveitar ao máximo o que Reni tinha a oferecer.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Vice City Stories - Parte 15


Vic acorda preocupado no dia seguinte ao roubo gigante de cocaína que sua mãe cometeu. A ideia de Lance de ir até os irmãos Mendez e mentir sobre o sumiço da droga era muito arriscada e aquilo não saia de sua cabeça. Vic liga o rádio e a VNN fala sobre o Interglobal Studios, que estava sendo usado para alavancar a cena cinematográfica da cidade com filmes de ação, como Mall Munchers, que Vic atuou. Pouco depois da notícia, o pager de Vic recebe uma mensagem do diretor Spitz, que possivelmente também ouviu a notícia naquela hora: “Se quiser participar de mais filmes ‘empoeirados’, vá ver Reni no estúdio de cinema...”.  Vic estranhou a mensagem amigável do diretor que não recebeu seu pó. Lance devia ter o enrolado com alguma mentira. Lance também envia uma mensagem chamando seu irmão para ir até sua casa. Vic foi ver o que Lance havia resolvido.

 Preciso achar um jeito de sair dessa, cara... – Lance diz para si mesmo, andando em sua casa sozinho, elétrico, provavelmente após ter cheirado cocaína.

 Lance, que porra está errada agora? – Vic entra na casa, pergunta sério e senta no sofá.

 Nada! Nada mesmo! Estamos bem! – Lance gagueja.

 Sério? Pois eu vou te dizer uma coisa: a gente não parece estar bem! – Vic ironiza.

 Então deixa EU te dizer uma coisa: nós estamos! Hahaha! – Lance diz com firmeza dessa vez.

 Bem, “nós” estamos parecendo um imbecil que acaba de perceber que “nós” fodemos nossa família inteira... – Vic usa novamente a ironia.

 Fale essa merda por você! São apenas negócios, baby. Acho que eu resolvi tudo... – Lance diz – Estou legal, cara. Estou relaxado demais! É isso aí!

 Do que você está falando? – Vic pergunta.

 Os irmãos Mendez. Eles não nos querem mortos mais... – Lance diz.

 Não? – Vic duvida.

 Não! Eles podem até querer machucar a gente um pouquinho, mas matar a gente? Nah! – Lance responde.

 Ok, então dois lunáticos homicidas querem me machucar um pouco e eu estou feliz com isso... – Vic novamente ironiza e explode – NO QUE VOCÊ ENFIOU A GENTE, SEU IMBECIL DE MERDA!?

 Mano! A gente está de boa! Sem problemas! – Lance tenta acalmar seu irmão.

 Ah, Lance... – Vic suspira enquanto o telefone da casa toca.

 Sim, é o Don! – Lance atende ao telefone, o que faz Vic olhar perplexo para a infantilidade do irmão – O que? Você está me zoando, né? Que merda...

 O QUE FOI? – grita Vic ao ver seu irmão desligar e ficar parado olhando para ele.

 Hehe, pode estar acontecendo um pequeno problema... – Lance gagueja muito antes de dizer que estavam atacando negócios de Vic.

 PUTA QUE PARIU, LANCE! – Vic grita e vai correndo para a garagem.

 PARA DE GRITAR COMIGO! NÃO É MINHA CULPA! – Lance também começa a gritar, seguindo o irmão.

 Claro que é! Se não fosse você roubando aquela cocaína dos Mendez, eles não estariam atacando meus negócios! – Vic responde.

 Eu estou cansado, cheio de você me culpando por tudo! Agora, eu vou salvar o “seu” império. Faça o que você quiser! – Lance diz entrando em seu carro e saindo em disparada.

Vic sabia que se seu irmão fosse sozinho, ele não ia durar muito, afinal eram capangas dos irmãos Mendez, os maiores barões do tráfico da cidade. Vic sobe em sua moto e segue Lance pela praia. Ele estava indo para a outra parte da ilha, onde ficavam os negócios de seu irmão. Lá chegando, os empregados de Vic já estavam combatendo as rajadas de tiro vindas de homens latinos em carros de luxo. Eram poucos, mas eram bem treinados, bons atiradores.  Alguns capangas de Vic são baleados, outros entram para os prédios, mas a ousadia de Lance e a frieza de Vic funcionam bem em guerras de rua. Os homens de Mendez morrem em frente ao prostíbulo e fogem do escritório perto do aeroporto.

 É isso ai! Nós vencemos! – grita Vic após a batalha.

 É! Mas eu não iria tão longe, mano! – Lance responde.

 Como assim? – Vic pergunta.

 Nós vencemos o dia de hoje. Mas provavelmente vão nos emboscar de novo em algum lugar... – Lance avisa – Foi mal, cara.

Lance volta para sua casa. Vic volta para a sua. Não era muito seguro, como sempre, ficar nas ruas de Vice City. A VNN logo anunciou que a polícia tinha tomado conhecimento do que estava se passando após os ataques a prédios comerciais pela cidade e que poderia ser o início da maior guerra entre organizações criminosas do submundo que a cidade já viu.

Naquele mesmo dia, Vic recebe uma mensagem em seu pager vinda de um dos irmãos Mendez: “Acho que nós temos interesses em comum. Ligue para nós – rápido”. O que será que era aquilo? Um blefe dos Mendez ou o resultado de alguma loucura que Lance havia inventado? De qualquer forma, essa aproximação fazia parte dos planos de Lance. Vic veste seu melhor terno, um italiano amarelo, liga para Lance, que já estava ciente, e marca para os dois se encontrarem em frente à mansão dos irmãos Mendez, no extremo norte da cidade, em uma pequena ilha chamada Prawn Island, que continha as três casas da mansão, o Interglobal Studios e alguns pequenos e antigos prédios de escritórios.

Os irmãos Mendez eram dois: Armando e Diego. Os dois eram descendentes de bolivianos e com o passar dos anos em Vice City fundaram o Mendez Cartel. Diego era o mais velho, um homem de cinquenta anos, bigode, terno escuro, poucos cabelos negros (provavelmente pintados) penteados para trás, óculos aviador e vários, mas vários itens de ouro pendurados em seu corpo. Já Armando era mais elegante, aparentava ser bem mais jovem do que seus prováveis quarenta e poucos anos, usava terno branco, tinha cabelos pretos, rosto liso como seda.

Os seguranças do cartel recepcionam Vic e Lance e os escoltam armados até a sala de estar. Os irmãos se sentam em um sofá fino e aguardam os irmãos Mendez por alguns segundos.

 Ah, gêmeos! Como Diego e eu... Que coisa! – Armando entra na sala falando alto ao olhar para Vic e Lance. Ele está acompanhado de seu irmão Diego.

 Escuta, Mendez. Nós não queremos merda nenhuma! – Lance se levanta e fala.

 Siéntate! – um dos seguranças grita e soca as costelas de Lance por trás. Vic pensa em reagir, mas desiste ao ver a arma de outro segurança apontada para sua cabeça. Ele estava desarmado.

 Escutem, irmãos Vance. Se vocês querem que eu mate vocês agora, sem problema. Ou, nós podemos trabalhar juntos. Vocês escolhem... – Armando diz.

 Que merda de escolha é essa? – Vic diz para si mesmo.

 Ok, acho que vamos trabalhar juntos... – Lance diz, com as mãos na costela, deitado no sofá.

 Bom. Diego? – Armando quer a opinião de seu irmão.

 Si! – grunhe Diego. Ele era do tipo ogro, de poucas palavras.

 Então, Victor e Lance... Quem é que está roubando de nós? – Armando pergunta com uma grande ironia, parecendo estar brincando com os dois – De todos nós, porque agora somos parceiros. Um time. Digamos... Quatro irmãos.

 Foi Martínez! – Lance diz rapidamente.

 Sério? Ok. Prove. Digo, prove agora... – Armando desafia Lance.

Lance balança a cabeça e bate no ombro de Vic para os dois saírem da casa. Vic sai, mas não entende e começa a ficar nervoso:

 Como que a gente vai provar que Martínez está por trás do roubo da carga deles?

 Martínez está trabalhando com o Estado. A única coisa que a gente precisa é de fotos dele com federais. A gente pode até armar para fazer ele parecer um policial infiltrado, como era Forbes. É isso! Cara, eu sou um gênio! – Lance diz a Vic – Tire umas fotos de Martínez com os federais, depois pegue os documentos de Forbes na minha casa e me encontre na Print Works!

 Print Works? – Vic não entende o motivo de ir até a gráfica.

 Confie em mim. Te vejo lá, mano! – Lance entra em seu carro e vai embora.

Vic sobe em sua moto e vai até próximo à delegacia de Vice City, que ficava próxima à sua casa. Ele já havia visto Martínez por ali. Após alguns minutos de espera, Martínez sai da delegacia com um agente da DEA. Ele estava sendo escoltado após ajudar a polícia com depoimentos. Martínez diz que queria saber do barco que a agência havia arrumado para ele deixar a cidade sob o nome de Sven Johansson, algo que não combinava muito com sua aparência, mas que era melhor que nada. Vic sempre carregava uma máquina fotográfica antiga, dos tempos de quartel, consigo e a usa para tirar uma foto de longe de Martínez e o agente conversando dentro de um carro. Mas ele tinha que saber para onde Martínez estava indo, então segue o carro, que vai até um píer da cidade, onde uma grande lancha está ancorada. Martínez reclama do barco, mas o agente diz que o sargento tinha sorte de ter aquilo, pois depor não era ganhar na loteria. Vic se aproxima do píer e tira outra foto de longe de Martínez já no barco, mas dessa vez era visível o colete da DEA do agente que o acompanhava. Já era o suficiente, mas Martínez percebe o reflexo do metal da máquina fotográfica. Ele prontamente avisa ao agente que alguém estava tirando fotos dele. O agente rapidamente avisa via rádio. Vic vê a movimentação de longe e trata de sair dali rapidamente para ir até a casa de Lance pegar os documentos de Forbes. Por sorte, aquele píer ficava a alguns metros da mansão de seu irmão. A polícia não tinha mais pistas de quem estava tirando fotos no píer. Vic então vai até a gigantesca gráfica Print Works, em Little Havana. Já é noite. O carro de Lance estava no estacionamento, então Vic encontra seu irmão e entrega tudo.

 Fotos, identidade de Forbes, ótimo! Vou colocar tudo isso junto com aquela papelada de identidade falsa que o nosso amigo deixou para trás! – Lance diz.

 Então, em vez de agente da DEA Forbes... – Vic diz.

 Nós temos agente Jerry Martínez, otário de primeira classe! – Lance completa – Isso deve convencer Mendez que Jerry é um policial.

 Se não der certo? – Vic pergunta.

 Corra. Mas não corra atrás de mim. Já vou estar em cima de uma árvore no Haiti... – Lance diz.

Lance entra em seu carro e vai para casa. Vic passa em algum restaurante para jantar e vai para casa. As próximas horas seriam decisivas para a relação entre os “quatro irmãos”.